Projeto Amazon-Bike

Entrevista para o Jornal Diario do Grande ABC

Enquanto a maior parte dos cicloturistas escolhe roteiros que aliem belas paisagens e boa infra-estrutura para pedalar, outros preferem justamente os lugares menos propícios para se encarar de bicicleta.
É o caso do aventureiro Dan Robson,que retornou a sua casa em São Bernardo do Campo no último dia 10, depois de passar mais de 70 dias cruzando o país de Oeste a Leste pela precária rodovia Transamazônica, desde o Rio Branco, no Acre, até a capital paraibana de João Pessoa.

Embora o percurso entre as duas capitais seja de aproximadamente 4,5 mil quilômetros, os desvios e obstáculos levaram o ex-analista de sistemas a ter de pedalar mais de 6 mil quilômetros para chegar ao mesmo destino. Isso sem falar nas subidas e descidas que o próprio aventureiro qualifica como "descomunais".

E o que é pior: em época de chuva. "os últimos 21 dias foram inteirinhos debaixo de água. Nessa época, a Transamazônica fica praticamente intransitável; bem difícil terminar a viagem", conta Dan Robson, que caracteriza o roteiro como belíssima e, ao mesmo tempo assustador, já que fica longe de qualquer lugar onde se possa pedir socorro caso suja algum imprevisto.

"Antes de iniciar o percurso, peguei algumas informações no 54 Batalhão de Selva da Amazônia, que me orientou quanto ao cinco piores problemas da região: o risco de contrair malária, as péssimas condições da estrada em si, os assaltos, os conflitos entre índios e garimpeiros, e os animais como onças e cobras. Mas o pior de tudo é a malária que pode matar se não for tratada a tempo".

Como compensação a essas dificuldades e à falta de socorro, Dan destaca a infinidade de tipos de frutas que podem ser colhidas ali mesmo, bem à margem da rodovia, como a manga, ìnga, cupuaçu, maracujá silvestre e banana, entre outras. "De fome ninguém morre na Transamazônica."

Rodovia : No dia 27 de agosto de 1972, o governo preparou uma grande solenidade no meio da selva amazônica, algo que marcasse a história do País. Na manhã daquele dia, o presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici, iniciaria a ligação do Brasil do Norte ao Nordeste, inaugurando a Transamazônica. Passados 30 anos, a rodovia continua praticamente a mesma. Em alguns trechos, torna-se uma trilha no meio da floresta. Em outros, o tráfego é precário. Quando chove, a lama deixa centenas de pessoas isoladas. E, mesmo no período de seca, a poeira e os buracos tornam a viagem pela estrada um drama sem fim.
A Transamazônica foi traçada saindo de Pernambuco e Paraíba. Depois, passaria por Maranhão, Tocantins, Pará, Amazonas e chegaria até Boqueirão da Esperança, na fronteira do Acre com o Peru. A intenção era ligar todo o País e chegar aos portos do Oceano Pacífico, num percurso de 8.100 quilômetros.
Com a estrada, o governo pretendia também colonizar toda a Amazônia e garantir a soberania nacional. Mas tudo acabou não passando de um sonho do general Médici. Somente um trecho ligando Aguiarnópolis (TO) a Lábrea (AM) foi construído e, mesmo assim, o tráfego flui apenas durante uma época do ano. Hoje, a Transamazônica tem 2.500 quilômetros, pouco mais de um quarto do previsto.
Uma Estrada Esquecida Integrar para não entregar [aos estrangeiros].
Embalada por esse lema nacionalista, uma legião de trabalhadores começou, em outubro de 1970, a derrubar árvores e a abrir caminho para construir aquela que seria uma das mais faraônicas e malogradas obras da história brasileira: a construção da Rodovia Transamazônica, ou BR-230. No auge do governo militar do general Emílio Garrastazu Médici, a estrada havia sido projetada para integrar a Amazônia ao resto do país.
Estavam previstos cerca de 5.600 km desde Recife, em Pernambuco, e João Pessoa, na Paraíba, até a minúscula e desconhecida Boqueirão da Esperança, no Acre, já na fronteira peruana. O primeiro trecho de 1.254 km ligando as cidades de Estreito, em Goiás, a Itaituba, no Pará, foi inaugurado festivamente em setembro de 1972. Dois anos depois, com menos da metade da obra concluída, as máquinas pararam. Uma devastação sem precedentes de deixar os ecologistas horrorizados, mesmo naquela época foi realizada, com aval oficial, no coração da Amazônia.
Poeira - "Tenho vontade de voltar para o Maranhão, de onde nunca deveria ter saído", reclama o agricultor José Alves da Costa, de 66 anos, um dos moradores antigos de Itupiranga, cidade que nasceu por causa da rodovia. Todo dia, ele percorre a estrada em uma bicicleta, um dos meios de transporte mais comuns, como as motocicletas. "A gente passa sem dificuldades pelos atoleiros e buracos. Aqui nesta estrada o bicho fica feio e chega a ter até cem caminhões parados." No verão, o meio de transporte de Costa pode ser também um dos mais perigosos. "Os motoristas não vêem a gente por causa da poeira, que cobre tudo", explica o agricultor, testemunha de muitas mortes por atropelamento.Pelo menos 250 quilômetros de estrada receberam asfalto. A pavimentação completa está prevista no programa Avança Brasil, do governo federal, mas muitos duvidam que venha a acontecer. "Se não fizeram nada em 30 anos, não vai ser agora, no fim de governo, que o pessoal vai botar a mão na massa", diz o motorista de ônibus Raimundo de Oliveira Andrade.