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Revista
Nez Adventure Abril EM
FOCO: DAN ROBSON
Por: Ana Paula Brasil Quem nunca pensou em mandar tudo para o alto e sair viajando por aí? Todo mundo em algum momento da vida já desejou isso, mas poucos tiveram a audácia de transformar seu sonho em realidade. Dan Robson, 32, paulista, cursou até o terceiro ano da faculdade de análise de sistemas e era um viciado em computador, levava uma média de dezoito horas por dia na frente do micro. Um belo dia resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer...se mandou para o Chuí e andou até o Oiapoque pelo litoral. Conheceu todas as praias do Brasil e isso foi só o começo de um longo projeto que ele estabeleceu para sua vida. Com suas idéias inteligentes embaixo do braço, garimpou parcerias e patrocínio para viabilizar seu sonho, e com sede de conhecimento, acabou voltando à própria origem humana de nômade. O próximo objetivo desse escorpiano espiritualizado, de olhar determinado, é ficar sozinho durante 61 dias numa caverna - ele quer saber como vai se comportar emocionalmente perante o isolamento e diz que não desistirá, só sai no final pré-determinado. Alguém duvida? Aqui Dan nos conta toda essa transformação, uma história inspiradora para aqueles que andam pensando em mudar de vida - quem quiser mais detalhes, acesse www.danrobson.com.br , o site traz todo o projeto em números, letras e cores, vale a pena dar uma olhada.NA - Como começou seu envolvimento com a aventura? DR - Dos quinze aos trinta anos, vivi praticamente 18 horas por dia em frente ao micro. Meu passatempo, fora minha profissão como analista de sistemas, era jogar com o computador, eu era viciado em informática! No final de 99, logo depois do natal, estava trabalhando e almoçando na frente do micro como fazia sempre, quando me deu um estalo! Percebi como a vida tinha passado rápido, os últimos cinco anos pareciam um segundo, e eu pensei, vou fazer 30 anos... tudo passou tão rápido... e o que eu conhecia? Qual tinha sido minha primeira viagem? Para o Paraguai, uma viagem desastrosa! O teto-solar do ônibus vôou, acabou o diesel, quebrou o ônibus, aconteceu de tudo... até preso por engano eu fui! Conhecia só um pouco do litoral, mas na verdade não conhecia era nada! Estava infeliz e resolvi mudar tudo, largar a informática e me dedicar à aventura. Pensei como poderia fazer uma viagem pelo litoral - de carro, moto ou barco, era muito complicado e caro. Resolvi ir a pé mesmo e sozinho. A princípio eu pensei em fazer o litoral de São Paulo, mas pensando melhor, decidi ir de ponta à ponta! Fiz o projeto de conhecer do Chuí até o Oiapoque, mas meditando um pouco mais, resolvi dar a volta na América do Sul dividida em três etapas.NA - Você radicalizou, largou o seu ganha-pão, mudou seu estilo de vida e apostou tudo em algo que não conhecia - decidiu se profissionalizar na aventura. Como foi essa transição? DR - Quando eu resolvi mudar, largar a informática e me dedicar à aventura, fiquei um ano me preparando - procurando parcerias com as empresas, estruturando o projeto e treinando, porque há cinco anos não fazia nada, estava totalmente sedentário. Era minha primeira aventura e dificilmente alguém patrocinaria, mas eu queria objetivos para o projeto, sou muito metódico, queria fazer isso profissionalmente e procurei parcerias. A Universidade São Marcos entrou com uma pesquisa na parte psicológica, já que eu era um viciado em computador, assim como existem pessoas que são viciadas em drogas. Eles fizeram vários testes em mim antes da viagem, comparando com informações que já existiam sobre pessoas viciadas em computador. Depois vão analisar e comparar com os testes que fizeram na volta da primeira etapa do projeto, para ver quais foram as mudanças ocorridas na minha personalidade. Num outro aspecto científico, fotografei, recolhi e cataloguei por região, várias espécies de ervas medicinais. Esse material foi entregue à um cientista, que vai analisar e pesquisar isso, comparando o que se usa em cada região, já que cada local tem um costume - para um mesmo problema, cada um tem uma erva diferente do outro, outras vezes coincidem. No aspecto esportivo, fiz o mapeamento do trekking por toda a costa , já que fui caminhando a beira-mar, e testes de equipamentos, pois andei mais de 8000km direto, analisei o comportamento de todos os ítens que usava. NA - Você desenvolveu um ótimo argumento para o projeto, deu embasamento à ele. Queria saber sobre o roteiro e qual foi o caminho que traçou para realiza-lo? DR - Como disse, era o final do ano de 99, e dediquei o ano de 2000 para me preparar. Montei meu projeto até 2011, já que a idéia era me dedicar totalmente. Eu queria buscar uma empresa que apostasse no meu sonho, uma aposta alta, pois era um projeto longo. Ele tem o seguinte roteiro: 2001 / Areias 365 parte 1, que foi o trekking por todo litoral brasileiro - do Chuí ao Oiapoque; 2002 / Projeto Petar 61, onde vou ficar 61 dias sozinho numa caverna (será agora em julho); em 2003 vou percorrer os 5000km da Transamazônica de bicicleta; 2004 / Areias Sub, onde vou fotografar e filmar altos pontos de mergulho no Brasil; 2005 / Areias 365 parte 2, do Oiapoque ao Chile; 2006, travessia do Alaska a pé; 2007 / Areias 365, parte 3, do Chile ao Chuí; 2008 / litoral da Austrália de caiaque; 2009 / travessia do Sahara; 2010 / Índia e 2011 a Nova Zelândia. Com o projeto pronto, fui atrás das empresas e me dediquei a treinar. NA - Quais foram as empresas que acreditaram no seu sonho? DR - Eu precisava que alguma empresa arcasse também com a minha manutenção nos últimos seis meses de 2000, pois estaria totalmente voltado para o treino e as preparações antes da viagem. A idéia era arrumar empresas que me acompanhassem por cinco, dez anos, uma proposta de fidelidade mesmo, de crença no sonho de que qualquer um é capaz de fazer uma aventura. Consegui a Curtlo, que foi meu principal patrocínio; Solo e Pé na Trilha, que foram meus co-patrocinadores; e Náutica, Divers University, Montana e Academia Acqua Play, que entraram como apoio. NA - Como se preparou fisicamente? DR - Comecei devagar e nos últimos seis meses treinei pesado. Todos os dias andava da minha casa até a academia, são duas horas de caminhada. Na academia, nadava uma hora e meia e depois mais uma hora de musculação para o condicionamento físico. Quando acabava o treino, andava mais duas horas de volta para casa. NA - Conte-nos como foi a primeira parte do seu projeto. DR - Eu pré-determinei um tempo para começar e acabar o projeto Areias 365 / parte 1, pois queria ser a primeira pessoa do século XXI a começar a nova era numa aventura, transformei a minha vida na entrada do terceiro milênio. Parti do Chuí no dia 31 de dezembro de 2000, as dez horas da manhã, que seria exatamente o primeiro instante do milênio no mundo, baseado no fuso horário das Ilhas Fidji, primeiro lugar onde o sol nasce, iniciando assim o novo milênio com o meu novo projeto de vida. Andava pela beira- mar; só quando era impossível, seguia por trilhas, estradas de terra e as vezes asfalto. Atravessei muito de barco com os pescadores e também nadava. Eu tinha um saco estanque, onde colocava minha mochila e que me dava flutuação, estava carregando uns 15kg de equipamento básico para sobreviver - coisas como água, barraca, lanterna, kit de comida, fora o equipamento fotográfico. Fazia uma média de 30km por dia, dava umas oito horas. Começava cedo, andava uns 15km, parava para almoçar e fazia o que faltava. No total foram 8051km, do Chuí ao Oiapoque. A primeira semana foi terrível, acho que era para me testar, até pensei em desistir, levei o maior susto e perdi quase todo o meu equipamento. NA - O que aconteceu? DR - Comecei a viagem e segui para a praia do Cassino, seriam 233km sem nada, nem ninguém, apenas um farol com seu guardião no meio disso tudo. Conversando com um morador local sobre o que me esperava pela frente, ele alertou sobre uma lenda, a do pé grande - um provável tipo de bicho, ou monstro, que atacava as pessoas. Ele me recomendou nunca andar a noite e ter muito cuidado, porque diziam que o bicho tinha o pé grande e dava gritos horríveis. Almocei com ele e comecei minha caminhada até o farol. Resolvi parar para jantar e montar acampamento, quando estava montando minha barraca, vi umas pegadas na areia... e eu falando sozinho... andei oito horas, cerca de 30km, não passou ninguém, não tem absolutamente nada, como pode essas pegadas? O lugar era totalmente deserto, nem os Lençóis Maranhenses são tão desertos quanto a praia do Cassino, que é a maior praia do mundo, a única coisa que tem lá é o Farol do Albardão. NA - Você estava acreditando na estória do pé-grande? DR - O pior é que as pegadas eram grandes mesmo! Achei que o caiçara estava me zoando, que ele pegou o carro, deu a volta, e fez as pegadas para me assustar! Percebi que subiam seguindo as dunas em direção a uma vegetação, e eu teria só meia hora de luz. Resolvi seguir as pegadas, mas estava apavorado, andei uns 200m até subir na duna e ouvi um grito absurdo! O mato começou a se mexer e eu corri! Se demorei uns seis minutos para subir a duna, levei três segundos para descer! Saí rolando apavorado, corri, peguei a mochila e caiu quase tudo! Perdi a barraca, toda a minha comida, a lanterna, roupas e minha faca, porque não fechei a mochila direito - na pressa de fugir, coloquei nas costas e saí correndo! Acho que corri umas duas horas sem parar, aí achei um barracão, mas não tinha ninguém. Escorei a porta, e apesar do calor, entrei no saco de dormir com medo do bicho sentir meu cheiro, me fechei completamente lá dentro, não estava acreditando!!! Quando o dia amanheceu eu me mandei, estava sujo e com fome, com muita fome, minha última refeição tinha sido o almoço do dia anterior, não havia nenhuma comida e ainda faltava uns 30km até o Farol do Albardão. Pelos meus cálculos chegaria lá umas quatro da tarde e já estava com dor de cabeça. Ia bebendo aos poucos a água que me restava, deu seis horas e ainda não havia chegado ao farol, já estava a trinta horas sem comer, não aguentava mais! Arranquei o capim e comecei a comer até arrotar! Continuei andando e pensando... nem bem começou minha viagem e já perdi minhas coisas, estou passando fome e comendo capim, aí avistei o farol. Levaria ainda um tempo até ele, meu estado era péssimo, andava dez minutos e parava para descansar. Ao chegar no farol, vi uma cerca e pensei... para quê uma cerca no meio do nada? Para não dar a volta, resolvi passar por baixo dela, e quando coloquei a mão tomei um choque! Era cerca eletrificada!!! Quando poderia imaginar??? Fui até a porteira e assim que entrei uma garotinha começou a berrar chamando pelo pai. Expliquei tudo que aconteceu e eles me deram comida, mandaram tomar banho e convidaram para ficar e jantar. Contei das pegadas, expliquei tudo, e ele tirando sarro da minha cara! Eu insistia, dizendo que a princípio também não acreditei na lenda que aquele senhor havia me contado, mas depois eu vi as pegadas, ouvi os gritos e vi o mato balançar! Ele, sem parar de rir de mim, explicou que toda aquela área, desde o farol até o Chuí, pertenceu a fazendeiros que criavam gado e tinham macacos bugios, que foram abandonados por lá quando a Marinha desapropriou a área. E foi isso que aconteceu... o bando estava gritando! Quando cheguei no povoado da praia do Cassino, entrei em contato com as empresas e mandaram novamente o material que havia perdido. NA - Por quê uma cerca no meio do nada, precisava ser eletrificada? DR - O capitão me disse que era para proteger as plantações dos animais, que antes dela, invadiam e destruíam tudo o que plantavam. NA - O que aprendeu nessa aventura? DR - Eu via o mundo em 14 polegadas e descobri que ele é muito maior que isso! O difícil não foi percorrer todos esses quilômetros, foi deixar para trás as dezenas de amigos que fiz. Na verdade, andar sozinho foi uma grande viagem interior. Uma coisa que me surpreendeu demais, foi a receptividade das pessoas, mais da metade das noites dormi na casa dos pescadores, coisa que para mim, um cara totalmente urbano, foi uma surpresa muito agradável e a melhor coisa da viagem! Acabei me sentindo parte de uma grande família brasileira! Foram doze meses viajando todo o litoral brasileiro, conheci 1938 praias! Quanto tempo da minha vida eu precisaria para poder conhecer tudo isso, se seguisse o que todos fazem? Precisaria de doze anos da minha vida, tendo um mês de folga por ano, então já ganhei doze anos, saí no lucro e estou vivendo minha vida em férias! NA - Sentiu-se arrependido em algum momento, com vontade de desistir? DR - Claro que em alguns dias era complicado, mas é um sentimento que passa... como um vento que vem, passa por você e vai embora. Algumas vezes fiquei desanimado, mas faz parte, foi o que escolhi para mim e segui em frente. NA - Por que você escolheu fazer suas aventuras sozinho? DR - Sempre gostei de fazer tudo sozinho, esse projeto mesmo... fui eu que montei a mídia, o marketing, a estratégia de funcionamento e fiz os contatos com as empresas. Eu me sinto bem estando só, e vi que consigo me virar melhor, me concentro melhor. Sozinho você erra menos, porque fica muito ligado em tudo, mas Deus está presente o tempo todo, conversava muito com ele, portanto não me sentia tão só. Como estava sendo entrevistado pelas afiliadas da Globo durante o trajeto, as pessoas me reconheciam e vinham falar comigo, me abraçar! É engraçado isso, porque a televisão invade a casa das pessoas e elas acabavam me vendo como amigo. Algumas pessoas faziam questão que eu ficasse na casa deles, me davam até a cama! No começo fiquei meio assustado com todo esse afeto, não estava acostumado; aqui em São Paulo, se alguém vier me abraçar ou abordar na rua, vou pensar que é assalto! NA - Qual é o retorno que você espera da aventura? DR - O que busco é estar feliz exercendo uma profissão e quero que meu espírito esteja bem, hoje a aventura preencheu esse espaço! Do meio para o fim da viagem, descobri que esse realmente era o meu caminho, não tinha mais nenhuma possibilidade de voltar atrás ou fazer outra coisa na minha vida. Meus projetos envolvem a minha auto-superação - não me importa saber se alguém já fez, eu quero fazer o meu próprio caminho. Quero sentir o mar, o frio extremo e o calor extremo, existe muita coisa desconhecida para mim, e quero apreciar de tudo um pouco, conhecer todas as sensações. Desenvolvi vários projetos, adequando à cada necessidade, mas tem que ser aos poucos, amadurecendo a idéia, porque as empresas precisam criar maturidade em cima disso para poderem apostar. NA - Como será seu próximo projeto? DR - Vou passar 61 dias dentro de uma caverna, a idéia é fazer um estudo sobre minhas reações num ambiente úmido, sozinho e sem luz. Em casa desligo todas as luzes e fico na escuridão, consigo fazer o jantar, ir ao banheiro, adoro ficar no escuro. Será numa das cavernas do PETAR, escolhida pela SBE, de modo que cause o mínimo transtorno possível. Esse projeto envolve autorizações, e está formado com fundamento - o Fred da Nômade vai pegar os dez melhores guias do parque e formar uma equipe de resgaste que será permanente - vou fornecer o treinamento e ceder os equipamentos necessários para que eles fiquem aptos a resgatar, já que hoje não existe uma equipe local especializada. Todo o meu lixo será depositado num gel, aquele usado em fraldas descartáveis, serão três compotas, onde depositarei separadamente, urina e fezes, lixo orgânico e o não-orgânico - esse gel absorve o odor e petrifica o lixo. Vou quebrar o recorde brasileiro (21 dias) de permanência em caverna, preciso de um lugar distante no mínimo a 1km da boca; que tenha água mas não seja extremamente úmido, porque vou escrever tudo. Terei contato com gente, de quinze em quinze dias, quando a equipe de resgate entrará na caverna para trocar as compotas de lixo e acompanhar as equipes de reportagem da Televisão e da revista Néz Adventure, que vão cobrir a aventura em tempo real. Essas pessoas estarão proibidas de me passar qualquer informação, nem se for caso de morte na família! Não saberei de absolutamente nada, só quando eu sair.NA - Está fazendo algum treinamento especial para isso? DR - Basicamente é o psicológico, porque a principal barreira que vou enfrentar será minha própria mente, meus eus, meus egos e medos. Expor tudo isso no papel é que será a grande aventura! O psicólogo que está me orientando, me disse que a partir de quinze dias o fator de isolamento começa a se tornar uma coisa séria, depois de trinta dias vai ficar absurdo, mas se eu conseguir passar dos quarenta dias será mais fácil, depois da metade fica mais tranqüilo. Não sei como vou me comportar, mas sei que vou terminar, entrarei no dia 28 de julho e só saio depois que passarem os 61 dias! NA - Como sua família encarou toda essa transformação, acham que você pirou? DR - Meu namoro de muitos anos já não ia bem, tínhamos objetivos diferentes de vida e acabamos nos separando. Sempre fui uma pessoa que vivi intensamente, vou de coração em tudo, e queria isso também para minha profissão. É isso que faço na aventura, eu dou a minha alma... se é perigoso, se eu morrer, morri fazendo uma coisa que amava, vou morrer feliz, e é isso que eu sempre falo para minha mãe, que é a pessoa que mais me questiona - nunca fui tão feliz! BATE PAPO O dia mais belo - domingo A coisa mais fácil - suar O maior obstáculo - a vida O maior erro - não sonhar A pior derrota - fraquejar O que mais te faz feliz - viver O mistério maior - a morte O pior defeito - não tentar A maior qualidade - fidelidade A melhor sensação - vitória A coisa mais bela - o sorriso de uma criança O que não sai da mochila - água Mania - computador Um esporte - todos Um sonho - realizar todos os meus projetos
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