REVISTA AVENTURA E AÇÃO

Pelas Areias do Brasil - expedições


Pelas areias do Brasi, quinze anos olhando para a tela do computador são capazes de transformar a vida de qualquer mortal e produzir um estereótipo que conhecemos bem: a triste figura de "um sujeito totalmente sedentário, com óculos 'fundos de garrafa', segurando um pedaço de pizza numa das mãos, enquanto tecla com a outra".

Dan Robson descreve, com essas palavras, a que sua vida poderia ter se reduzido. Contudo, depois de uma década e meia respirando informática, ele mudou o rumo dessa história. Decidiu dar uma volta por aí, como todos nós fazemos vez ou outra. A diferença é que ele foi bem além daquela pausa para o cafezinho na padaria da esquina. Está percorrendo a distância entre o Chuí e o Oiapoque.

A pé. Para cumprir o projeto "Areias 365" Dan Rrobson Dias saiu do Chuí, RS, no dia 31 de dezembro de 2000, para enfrentar mais de 8.000 km, até chegar ao Oiapoque, no Estado do Amapá, um ano depois. Quando esteve na redação de Aventura e Ação, ele havia realizado um terço da viagem, ou 2.800 km, até a parada em Vitória, ES. A caminhada pelo nosso litoral é a primeira parte de uma volta pela América do Sul, "estou fazendo este trecho a pé, já os próximos serão de carro, barco, moto...", explica. Dan, como é chamado por todos, sempre praticou esportes, "adoro trajetos longos. Já fiz maratonas, mergulho autônomo, ciclismo, atletismo e natação", conta.

Aos 31 anos, começou a trabalhar com informática aos 15, dividindo o tempo entre o trabalho e os esportes que praticava. A idéia do "Areias 365" surgiu no Natal de 1999, quando tentou lembrar-se da última vez em que havia praticado algum tipo de esporte. Havia quatro anos. "Levei um susto. O tempo havia passado rápido demais e eu não estava vivendo, só me dei conta disso naquele momento", lembra. No trajeto inédito, ele passará por cerca de 2.000 praias, em 17 Estados. Além do aspecto esportivo, um dos objetivos é pesquisar os hábitos, costumes, religiões e folclore do povo caiçara. Também faz parte do projeto a coleta de possíveis ervas medicinais.

"À beira mar o índice de doenças de pele é muito grande, por isso as pesquisas estão voltadas para a área de renovação celular", esclarece. A sede desse paulistano por dar fim ao que ele chama de "vida mecânica" rendeu projetos que deverão estender-se pelos próximos nove anos. A volta pela América do Sul será realizada em três etapas: além desta, haverá uma em 2003 e outra em 2005. Ele ainda tem planos para outras expedições, que acontecerão em 2002, 2004 e de 2006 até 2009. Em 2002, no "Areias Sub", Dan fará novamente o trajeto do Chuí ao Oiapoque, mas de carro e barco, visitando os melhores points de mergulho do país. Em 2004 ele pretende fazer a travessia do Deserto do Saara a pé, "é um desafio pessoal, será a maior façanha da minha vida", revela. Em seus dias de caminhada, carrega a barraca, saco de dormir, filmadora, máquina fotográfica, isolante térmico, kit de primeiros socorros, comida e mapas. Até o momento fez duas pausas. A primeira no final de fevereiro e a segunda em maio, quando veio a São Paulo atualizar o site (www.danrobson.com.br) e trazer imagens para a Rede Globo. O saldo mais importante contabilizado nesses primeiros meses de expedição, sem dúvida, foi a receptividade das pessoas que encontrou pelo caminho, suas lendas, hospitalidade e gestos de carinho desinteressado. Tão surpreendentes quanto as manifestações de carinho - de pessoas que oferecem casa, comida e uma boa prosa - as lendas que fazem parte do imaginário dessa gente simples e hospitaleira estão rendendo as melhores histórias. Você conhece o Pé Grande? Essa temível criatura existe no sul do Brasil, próximo ao Chuí, e seus gritos fizeram nosso expedicionário correr por quase duas horas, sem parar.

"Nunca ouvi um grito tão apavorante em toda a minha vida", conta. A existência do Pé Grande é confirmada por qualquer habitante do Balneário de Ermenegildo, a uns 13 km do Chuí. Dan estava em seu segundo dia de viagem. "Não comia há oito horas, então parei pra montar a barraca e tirar a comida da mochila. Foi quando eu vi as enormes pegadas no chão. Pensei que estivessem me pregando uma peça, mas o que veio a seguir me fez entrar em pânico", lembra. Mesmo ressabiado, ele resolveu seguir as pegadas, subindo a duna. "Minhas botas são número 44, e as pegadas ainda eram maiores", conta. "No alto da duna, avistei uma restinga e, rapidamente, o mato se mexendo. Em seguida veio aquele grito absurdo. Não havia ninguém ali. Quem estaria gritando?".

O fato é que ele achou melhor não esperar para obter a resposta e saiu rolando duna abaixo. Na tentativa desesperada de juntar tudo o que era seu e sumir o quanto antes, acabou perdendo boa parte de seus pertences, inclusive toda a comida. Apenas no dia seguinte, depois de quase 30 horas sem comer e à beira do desespero, foi que o ex-analista de sistemas - quando finalmente encontrou outros seres humanos que lhe dessem o que comer - pôde desvendar o mistério que quase o matou de susto. "O cabo Gregório, que me ofereceu pouso, me contou que a horripilante criatura era um macaco bugio, cujas pegadas à beira-mar, obviamente, aumentam de tamanho.

É uma família de macacos bugio que vive por aquelas bandas e que, tempos atrás, eram mantidos em fazendas da região", explica. Desfeito o mistério, prosseguiu firme e forte, rumo ao norte. "Depois daquele dia, estava preparado para qualquer tipo de apuro", conta. Entre o ano que antecedeu a viagem e este que segue, o "Areias 365" terá um custo total de cerca de R$ 10.000,00. A expedição conta com o apoio de nove empresas e irá virar livro: "Areias 365, 365 dias de caminhada pelo litoral brasileiro".