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![]() ![]() ![]() Entrevistas
de Dan Robson: Revista
Aventura e Ação Setembro
De nerd e louco, todo mundo tem um pouco Quando algum expert da aventura larga tudo para viver seus sonhos, muita gente estranha. Agora, se alguém que não pratica esportes, nunca acampou e nem sabe direito arrumar uma mochila fizer isso, há quem diga que a camisa de força é a única solução Por Carine Portela Você é um nerd e não há como negar. É fera na informática, trabalha com isso desde que se entende por gente, passa o dia inteiro em frente ao computador e todos os seus amigos são iguais a você - alguns apenas são mais gordinhos e outros usam óculos fundos de garrafas. Prestes a completar 30 anos, você já sabe como serão os próximos 10 anos da sua vida: entre teclados, monitores e problemas cabeludos para resolver. Seu nome é conhecido no mercado e, além de duas lojas, você tem centenas de clientes satisfeitos. Nada vai mudar até você se aposentar, começar a aproveitar a vida e gastar o dinheiro que acumulou. A não ser que... você resolva jogar tudo para o alto. Você tem um estalo e abandona a respeitável e promissora carreira que construiu durante quase duas décadas. Por quê? Porque seu nome é Dan Robson e um dia você decidiu que queria mais da vida. Sua mãe chora, seus amigos dizem que você enlouqueceu mas, na verdade, agora sim você tomou juízo. E avisa: "Vou andar o litoral brasileiro inteirinho a pé. Até o ano que vem, galera!". Quando volta, emenda: "Agora vou ficar dois meses sozinho dentro de uma caverna. A gente se vê por aí..." Suas expedições são um sucesso, mas ainda é pouco para você. Quando todos achavam que o perigo havia passado, você mostra que entrou nessa para ficar. Até 2012, seu calendário já está programado, e inclui percorrer a Transamazônica - ou o que sobrou dela - de bike, completar a volta da América do Sul, e atravessar regiões tão diferentes quanto inóspitas, como o Alasca e o Saara. Sim, você é um autêntico caçador de aventuras. Aventura e Ação: Quando você era criança, se interessava por aventura? Dan Robson: Eu não tinha nenhum interesse por isso. Nem esportes eu praticava. Na aula de educação física, eu sempre era o goleiro no jogo de futebol, porque só servia para isso. E depois, com 14 anos, eu já comecei a estudar informática. Naquela época que não existia nem Windows, pra você ter uma idéia. AA: E depois a informática virou a sua profissão? Dan: É, porque eu gosto de criar. Na época não existia nada na informática, eu tinha que desenvolver tudo, sempre criar coisas novas, usar muito a criatividade. Isso me atraía muito. AA: Então você era feliz? Dan: Era, eu sempre gostei de trabalhar com isso. Passava 18 horas, em média, na frente do computador, mas cheguei a passar dois dias inteiros. E eu gostava, porque sempre era um novo desafio. E também tinha a parte financeira. Com 18 anos, eu ganhava o que hoje seria equivalente a R$ 10 mil. AA: Como você percebeu que não era mais isso o que queria da vida? Dan: Foi no final de 99, dia 27 de dezembro. Eu estava almoçando, pra variar, na frente do computador. Aí acabou a força e eu continuei lá. Sabe quando fica aquela tela preta no monitor do computador? Então, vira quase um espelho, né? E eu comecei a me olhar e falei: "Puxa, eu vou fazer 30 anos no ano que vem. E o que eu vou fazer da minha vida? Vou continuar na informática? A minha vida inteira foi assim, já perdeu a graça, porque não tem mais nenhum desafio..." E foi então que eu comecei a olhar um Guia de Praias Quatro Rodas. Comecei a ver aquelas praias, algumas poucas que eu já conhecia. Como era final de ano, eu podia pegar janeiro inteiro pra fazer uma viagem, conhecer todo o litoral de São Paulo, por exemplo. Mas aí a idéia foi crescendo na minha cabeça... E se eu fizer mais? E se eu percorrer dois estados, ou três... AA: Você estava, na verdade, planejando suas férias? Dan: Em princípio foi, mas eu dormia com aquilo na cabeça e, um dia, acordei pensando em fazer aventura de verdade, porque sabia que algumas pessoas faziam isso. Só que eu não conhecia ninguém que fazia, nem empresa, nada do meio. No meio em que eu convivia só tinha aqueles caras gordos, de óculos, que só falavam em computador. Eu comecei a imaginar a minha vida dali a dois, 10 anos, seria exatamente isso? Não é que eu não queria ser "normal", mas eu sempre tive uma coisa interna de querer ter prazer de viver. Então essa idéia das férias durou três dias, no máximo, depois virou idéia fixa e eu decidi que ia percorrer todo o litoral brasileiro a pé. E em janeiro mesmo eu me desfiz dos meus clientes e comecei a buscar parcerias. AA: Como um sedentário decide que vai fazer tamanho esforço físico? Dan: Sempre gostei de andar a pé. Meu pai mora no Ipiranga, e eu em São Bernardo. Da minha casa até a dele são 15 km, mas vira e mexe eu voltava a pé para casa, do nada, sem ter programado. Porque quando eu andava, tinha tempo para pensar, conseguia me encontrar. Então fiquei pensando se eu conseguiria fazer uma coisa maior. Foi só fazer as contas: se eu andava 15 km em duas horas e meia, eu conseguiria completar o percurso em um ano, andando 30 km por dia. Mas é lógico que eu fui treinar, fiquei um ano me desenferrujando na academia. Mas o grande desafio não foi esse. AA: E qual foi? Dan: Eu descobri que sobreviver da aventura é o grande desafio. Imagina você largar a informática, com um bom salário, pra sobreviver disso. Em todas as empresas que eu tentava parceria, eles perguntavam: "O que você fez anteriormente na aventura?" "Nada, eu sou analista de sistemas" [risos]. E aí eu ouvia que eu não ia conseguir, que era impossível. Quando comecei o projeto, só quem acreditou em mim foi a Pé na Trilha, a Sollo e a Curtlo, principalmente. De resto, eu fui sozinho. AA: Mas qual era exatamente o seu projeto? Dan: Se eu ia parar de trabalhar com informática, tinha que fazer da aventura a minha profissão. A minha visão não era só andar a pé como um mochileiro, mas buscar alguma utilidade para aquilo. Eu comecei a buscar um ideal para o projeto: o que poderia ser útil, já que eu andaria a pé do Chuí até o Oiapoque? Fazer algum tipo de pesquisa, por exemplo. Então fiz uma parceria com a área de fitoterapia da Universidade São Marcos e cataloguei as ervas medicinais encontradas ao longo do caminho. Eu sabia que em muitos lugares à beira-mar não existem farmácias, então a população ribeirinha cultiva muitas plantas para serem usadas como remédio. Nossa, tem remédio pra tudo mesmo, o Brasil é uma verdadeira farmácia a céu aberto. AA: Você não tinha nenhuma experiência em aventura, como foi se virar sozinho? Dan: É claro que para fazer uma aventura dessas tem que ter um monte de macetes, mas eu aprendi na raça. Imagina que eu nunca tinha acampado na vida. Quando eu montei a mochila, ela tinha 35 kg, cheia de tranqueiras. Eu levei nadadeira, corda pra rapel etc. Fui aprendendo tudo aos poucos, como caminhar, como montar acampamento... Mas o principal foi aprender como me virar. Fiquei craque em arrumar hospedagem em casa de pescador. Eu conversava com eles e pegava informações sobre as ervas do local, mas esse bate-papo já era um auto-convite. Metade da minha viagem eu fiquei hospedado com eles, que são super atenciosos. AA: Qual o maior apuro que você enfrentou? Dan: Eu estava fazendo um levantamento sobre lendas regionais. Isso no segundo dia de viagem, indo para a Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul. Aí um pescador me falou que pra lá não tinha "nada nem ninguém, só uma lenda de um tal de Pé Grande". Ele disse que o bicho atacava e eu fiquei com isso na cabeça. Bom, depois de andar 40 km sem parar, decidi montar acampamento. Quando dei por mim, estava rodeado de pegadas enormes, maiores que a minha bota 44. Aí lembrei da história, e comecei a ouvir gritos muito altos. Não pensei em nada, o pavor tomou conta de mim, peguei a mochila e comecei a correr. Após uma hora, arrombei a porta de uma cabana pra me abrigar do monstro. Ainda apavorado e com medo que ele me localizasse pelo cheiro, me fechei dentro do saco de dormir e fiquei lá até o dia amanhecer, num calor infernal, com o suor pingando. Pra resumir, perdi minha comida na correria, fiquei 24 horas sem comer e só sobrevivi porque comi capim. Depois, descobri que o Pé Grande, na verdade, era só um macaco bugio. Eu mereço [risos]... AA: Nesse e em outros momentos, você não pensou em desistir? Dan: Nessa hora eu pensei, mas o único lugar habitado era um farol, e eu perguntei para o sargento que mora lá como eu fazia para ir embora. Ele disse que o caminhão da Marinha passava uma vez por mês, e tinha passado há três dias. Se eu quisesse esperar... Depois não passei por mais nenhum apuro, mas só tive convicção de que ia terminar quando cheguei na Bahia, a metade do caminho. Lá, parece que foi um marco. Até ali eu podia desistir, mais um passo para frente, seriam 4 mil km e alguns metros, e eu teria que continuar pelo resto da vida. Eu não estava decidindo só sobre o resto da viagem, mas sobre a minha vida inteira. Fiquei sentado na guia, aquele sol rachando, aquelas mulas velhas passando. Então eu pensei: "Se eu voltar pra São Paulo, vou ficar igual esses burros de carga, nesse vai e vem. É isso que eu quero da minha vida? Com certeza não". Então segui a viagem muito mais confiante. AA: No que essa primeira aventura mudou sua forma de ver o mundo? Dan: Eu não via o mundo. Para mim ele era aquele mundo pequenininho do monitor. Nada mais do que aquilo. Nas grandes cidades as pessoas vivem naquela correria, você tem que batalhar pra caramba pra ter e manter alguma coisa, as pessoas não conversam. Nessa viagem eu descobri que é muito pouco o que você precisa para ser feliz, que a felicidade pode vir de maneiras muito diferentes das quais estamos acostumados, e é isso o que eu busco com a aventura. AA: Como surgiu a idéia de ficar dois meses dentro de uma caverna? Dan: Em princípio, eu queria ficar 17 dias. Quando descobri que o recorde brasileiro era de 21 dias, decidi ficar dois meses. O único problema era que as cavernas têm várias regras de visitação. Mas como o que eu busco no meu trabalho é exatamente ter um fundamento científico, resolvi buscar parcerias com pessoas que gostassem da minha permanência lá, por algum motivo. AA: E quem gostou? Dan: A Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), que queria fazer um estudo sobre o impacto ambiental gerado pelo homem nas cavernas. Inclusive foram eles que escolheram onde eu ia ficar [na Caverna Alambari de Cima, no Petar, em São Paulo]. Então, além de testar os meus limites, eu fiz essa pesquisa com aparelhos de medição de impacto; um estudo sobre as alterações do corpo humano durante a ausência total de luz; outro de equipamentos e até um psicológico, acompanhado pela Universidade São Marcos. AA: Quais as principais mudanças físicas por que você passou? Dan: Lá, meu dia a dia era à luz de velas, então, quando eu saí, o mundo tinha uma única cor: amarelo. E como estava muito acostumado à lanterna de cabeça, não tinha mais visão lateral, só enxergava o que estava na minha frente. Demorei uma semana para voltar ao normal. Já o olfato e a audição voltaram super aguçados. E como ali dentro é muito úmido, meu cabelo que era comprido, voltou cheio de falhas. Os chumaços iam caindo, porque ele foi apodrecendo mesmo. A barba, além de ficar imensa, criou caspa. Sem contar que eu perdi oito kg me alimentando normalmente e sem fazer exercícios físicos. No final, já sentia dores para respirar, mas não contei para ninguém. AA: Como foi a luta psicológica que você viveu ali dentro? Dan: O psicólogo falou que ali eu tive uma alteração, não que eu cheguei a um estado de loucura, mas em um estado anormal. Eu já penso diferente [risos]... Ali era eu comigo mesmo, eu tinha que ficar conversando sozinho, tinha que encarar, naquela solidão absoluta, todos os meus medos, meus erros. O grande problema nem era tanto a vontade de sair da caverna, porque tinha grade, cadeado, e precisava de corda para sair. Mas era me agüentar mesmo. Teve momentos em que eu acordava chorando, desesperado, e ao mesmo tempo ficava me controlando: "Calma Dan, de onde vem essa agonia?" AA: Além da solidão, o que era pior dentro da caverna? Dan: A comida, porque eu sempre tinha que inventar alguma coisa, e era sempre péssimo. Pra começar que eu não podia jogar detergente dentro do rio, então eu cozinhava sempre na mesma panela, e depois só limpava os restos de comida com água fervendo. Um dia eu fiz um arroz com lentilhas e ficou muito ruim. Pra tentar aliviar, joguei um ovo cru dentro. Ficou pior, mas eu não podia jogar fora, então, peguei goiabada, fatiei, joguei dentro, e engoli tudo. AA: Você tomou algum susto lá dentro? Dan: No primeiro mês eu tinha receio de tudo, nem saía da barraca direito. Quando ia no rio, parecia um astronauta, com lanterna, vela, fósforos e carbureteira, pra não ficar sem luz mesmo. No segundo mês eu fiquei tão acostumado que ia só com uma lanterninha na cabeça. Justo nesse dia eu vi uma lontra. Quando me abaixei, ela se assustou e veio pra cima de mim. Eu pulei pra trás e bati a mão na cabeça. A lanterna caiu na água e eu fiquei sem luz. E agora? Pra onde eu vou? Desespero. Então eu passei a mão e era tudo argila, aí fiz um monte e comecei a jogar, e fui jogando, até ouvir um som diferente, que é quando tinha batido na barraca. Fui andando e jogando, até me encontrar. AA: Nos seus projetos, você está sempre sozinho. Qual a sua relação com a solidão? Dan: Eu gosto da solidão. Sempre me virei sozinho. Quando eu fiz 11 anos, meu pai me deu um bolo de dinheiro. Imagina que se eu ganhasse R$ 50 de mesada, ele me deu R$ 1.000. E falou: "A partir de hoje, esse dinheiro é pra você comprar tudo o que você precisar. Não vou te dar mais um tostão na vida". Aí eu achei que era brincadeira, e gastei tudo em menos de um mês. Quando eu fui pedir mais para ele, ele disse que era sério. Aí fui arrumar emprego e desde então sempre me virei sozinho. Até hoje, eu trabalho sozinho, faço o projeto, o contato com as empresas, a divulgação com a mídia, tudo. AA: Já dá para ganhar dinheiro com a aventura? Dan: Ainda não, estou empatando. Mas eu estou mostrando para as empresas que aplicar em mim vale a pena. Por isso a minha idéia é ter um motivo, objetivos, não só colocar a mochila nas costas e sair por aí fazendo loucuras. Eu digo pra minha mãe que tem mais aventureiros do que pagodeiros, então a gente tem que ter alguma coisa a mais. AA: Esse é o segredo? Dan: Na aventura, muitas pessoas se acham super-homens. Um monte de gente de nome disse: "Esse Zé Mane não vai durar uma semana". Falam que quem faz aventura é o máximo, mas qualquer um faz. O segredo é só a determinação, a força de vontade. Eu aprendi na caverna que desistir é muito fácil, mas não tem graça. AA: Você tem algum sonho que ainda não entrou no calendário? Dan: Meu último sonho é escalar o Everest com 80 anos. Eu admiro quem escala a vida inteira, mas o que eu tracei para a minha vida é só me aposentar escalando, não ir para a montanha antes disso. E esse vai ser o meu último projeto. AA: E o seu próximo projeto? Dan: Quando as pessoas estiverem lendo essa entrevista, eu já estarei nele. Dia 10 de setembro vou para o Acre e, de lá, sigo pela Transamazônica de bike. Como já cruzei o Brasil de sul a norte, agora vou cruzar de oeste a leste. É um projeto interessante porque a Transamazônica foi construída há mais de 30 anos, e dizem que em muitos lugares a estrada não existe mais, longos trechos que a mata envolveu, e é isso que eu vou descobrir. Eu ia voltar sem pressa, mas recebi um convite da Adventure Sports Fair para dar uma palestra, então volto antes do dia 16 de novembro. AA: Quase três anos depois de largar tudo, quais as recompensas da sua ousadia? Dan: Muitas. Descobrir coisas novas, principalmente. Aqui em São Paulo é sempre normal. Se você descobrir alguma coisa nova, só se for um carro novo ou alguma mulher bonita que passou na rua, nada mais. Na aventura não, você conhece sensações que o dinheiro não compra. Eu sempre digo uma coisa: A gente não escolhe como vai nascer nem como vai morrer. A única que a gente escolhe é como vai viver. E o que eu escolhi pra minha vida é difícil, mas vale muito a pena.
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